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Quando a cabotagem vale a pena: como grandes empresas estão usando o modal no Brasil

Gerentes de logística da Red Bull, Mondelez e Samsung comentam desafios e oportunidades da cabotagem
Por Gabriela Medrado em 31 de agosto de 2026 às 8h39
Quando a cabotagem vale a pena: como grandes empresas estão usando o modal no Brasil
Foto: Freepik
Foto: Freepik

A cabotagem movimentou cerca de 223 milhões de toneladas no Brasil em 2025, um crescimento de 4,33%, de acordo com dados consolidados pelo Ministério de Portos e Aeroportos baseados no Estatístico Aquaviário da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). Hoje, os granéis líquidos e gasosos dominam cerca de 75% do setor, mas o setor de carga conteinerizada está despontando como um dos que crescem mais rapidamente na adoção do modal, movimentando 24,3 milhões de toneladas no Brasil em 2025, um crescimento de 11%.

A Associação Brasileira dos Armadores de Cabotagem corrobora esse aumento, e registrou um crescimento de 23,6% na movimentação de contêineres por cabotagem em 2025, em comparação com 2024. O avanço de 23% na cabotagem teve como destaques o segmento doméstico, que cresceu 15%, e o feeder, que apresentou aumento de 31,6%. Já no trade Mercosul, apesar do menor volume absoluto, o crescimento atingiu 33,3%, indicando a recuperação da participação das associadas nesse mercado.

A Abac avalia que os números consolidados entre suas associadas evidenciam a retomada e o fortalecimento do transporte marítimo de cabotagem e feeder no país. O painel "Cabotagem como estratégia logística: quando vale a pena para as empresas" durante o Fórum ILOS 2026, realizado entre 20 e 21 de agosto em São Paulo, reuniu representantes de três empresas que passaram a usar a cabotagem em suas operações no Brasil.

Red Bull é uma das que passaram a adotar a cabotagem para cargas conteinerizadas e participaram da conversa. De acordo com Fernanda Redondo, diretora de operações Brasil da Red Bull, cerca de 95% da distribuição do centro de operações em Santa Catarina para o centro em Pernambuco é realizado via cabotagem, pelo Porto de Suape. Atualmente, 10 a 15% do volume de vendas da empresa no Brasil é movimentado para a região Nordeste a partir da operação pernambucana.

 

Lead time versus previsibilidade: quando a cabotagem compensa

Para Fernanda, a cabotagem tem vantagens ambientais e pode ser integrada às operações de empresas com o planejamento adequado. A executiva nota que, apesar do aumento no lead time do transporte em relação ao modal rodoviário, devido à logística portuária e características do transporte marítimo, a operação da produtora de bebidas se beneficia da previsibilidade do serviço.

"Quando a gente avalia o histórico de tudo que pode acontecer num transporte rodoviário, a estabilidade da cabotagem é tão melhor que quando você consegue incluir esse modal faz muito sentido. Fazendo as transferências entre CDs por cabotagem, temos saídas agendadas para toda semana, então já faz parte do nosso padrão de planejamento, e o rodoviário acaba sendo uma excessão", explica. Ela afirma que a empresa está expandindo o uso do modal na distribuição para a região Norte e está realizando testes na entrega para o cliente final.

Claudio Pena, gerente de supply chain excellence na Mondelez International, complementa que o aumento no lead time gerado pelo intervalo entre embarques na cabotagem pode ser integrado à operação, aproveitando o tempo que os produtos passam no porto para aumentar estoques de matéria-prima na fábrica e alavancar a produção.

"O primeiro passo é ter um entendimento claro das suas áreas de planejamento, quando você mexe no padrão já estabelecido, tem que conhecer e saber desafiar. A gente começou em 2023 com 3 embarques de cabotagem e vamos fechar este ano com mais de 2.600. Mas você tem que dar prioridade ao modal e mostrar que ele funciona", conta.

Carlos Oba, Head of division - Logistics Director da Samsung Electronics, que participou do painel representando a divisão brasileira da empresa, complementa que a cabotagem deve fazer parte de matriz logística diversificada que considera as vantagens estratégicas de cada modal. "Não é escolher trocar os modais, mas complementar. Ter um pool de modais e entender o melhor mix de atendimento para cada situação", explica.

Essa é a estratégia da fabricante de eletrônicos no Brasil, que considera fatores como rota, distância, tipo de produto e infraestrutura e emprega a cabotagem em determinadas situações. "A gente sempre leva em consideração um viés financeiro, mas precisamos entender qual o melhor atendimento para aquele tipo de produto e para o consumidor. É um modal menos flexível que o rodoviário, por isso exige mais planejamento", complementa.

O executivo ressalta que a cabotagem traz uma competitividade maior no fator ESG, pelas emissões de carbono consideravelmente menores em rotas longas. "Quando avaliamos custo x nível de serviço, o ESG também entra como um indicador".

 

Gargalos e oportunidades no porta a porta

O três executivos ressaltam que atualmente, o maior desafio de adotar a cabotagem no transporte de cargas não é o serviço em si: é a integração de modais na operação porta a porta. "É um modal que integra vários modais e acaba começando e terminando no rodoviário. O mais importante para o avanço do modal é integrar as outras pernas no rodoviários e no ferroviário", explica Carlos.

Os desafios da infraestrutura portuária, ferroviária e rodoviária brasileiras impactam a integração multimodal, na avaliação de Carlos, Cláudio e Fernanda. Para Fernanda, ainda existe uma carência de fornecedores de transporte fracionado que se integrem ao fluxo da Red Bull mantendo o nível de serviço. "Quando tenho grandes volumes e consigo fazer carga lotação, consigo ter um fluxo melhor e um nível de serviço melhor. Quando é uma carga solta começo a sofrer com infraestrutura", explica. No Norte e Nordeste, o desafio é ainda maior: "tenho um pool de fornecedores menor, infraestrutura pior e isso prejudica".

Cláudio Pena, da Mondelez, acrescenta que o cenário atual é de muitas oportunidades para empresas do transportem rodoviário que qeuiram operar nas pontas complementares à cabotagem, principalmente no transporte fracionado. "Eu tenho uma capilaridade gigantesca e faz muito sentido pensar num transporte fracionado. Dou preferência às cargas de lotação justamente pela deficiência na fracionada. Há uma janela para transportadores que quiserem trabalhar nesse meio", comenta.

Para o executivo, o sucesso da cabotagem depende da disposição de empresas de todo o ecossistema logísticos de enfrentarem os desafios juntos. Carlos ecoa esse sentimento: "quanto mais a gente conseguir orquestrar todos os parceiros e todos eles trabalharem de uma forma integrada, eu acredito que esse é o sucesso do modal. Quanto mais a gente conseguir diminuir a fricção e conseguir desenhar muito bem os cenários, quais são os fatores de risco para determinadas rotas, eu acho que a gente consegue ter sucesso".

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