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A tríplice transformação logística: Reforma Tributária, fim da escala 6x1 e massificação da IA

Por Boris Leite el 29 de septiembre de 2026 a las 10h02
Boris Leite
Boris Leite, sócio-fundador da Ekantika

O setor logístico brasileiro opera historicamente sob o peso de uma estrutura de custos altamente representativa, estimada em cerca de 15,5% do PIB, segundo dados do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS). Essa realidade é o resultado direto de décadas de decisões tomadas com base em incentivos fiscais regionais e em modelos de jornada de trabalho desenhados para outros momentos da economia. Hoje, porém, a convergência simultânea de três forças estruturais — a reorganização tributária, a revisão das jornadas operacionais e a aceleração da inteligência artificial — impõe rupturas sem precedentes no setor.

A reação mais comum no topo das organizações diante desse cenário é fatiar os problemas em pautas isoladas: o tema fiscal fica com a área tributária; a discussão trabalhista vai para o RH e a tecnologia é delegada ao TI. Esse é um equívoco metodológico custoso.

A reforma tributária, o fim da escala 6x1 e a massificação da inteligência artificial não são três eventos independentes que, por acaso coincidiram no tempo. São três vetores atacando exatamente a mesma variável: a capacidade, a velocidade e o custo da operação logística no Brasil. Tratar essa conjuntura como uma simples sequência de ajustes operacionais é errar a dimensão da resposta. O momento exige a revisão da própria tese de negócios.

 

O que define sua malha?

A começar pela transição fiscal, o ambiente de testes do novo sistema — com a introdução da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) para calibração de processos e sistemas — antecede o início da cobrança efetiva prevista para 2027 e a consolidação do modelo pleno até 2033. Essa janela não deve ser interpretada como uma margem para esperar o cenário se definir, mas sim como o tempo necessário para redesenhar a arquitetura logística com racionalidade.

Grande parte das redes de distribuição no Brasil não está onde está por critérios de distância física, tempo de trânsito ou menor custo de transporte, mas sim por benefícios fiscais de ICMS que deixarão de existir com a chegada do IVA dual. 
Este é o momento para cada empresa avaliar quanto da sua malha logística atual existe apenas por razões fiscais e não por lógica operacional. As empresas que responderem a isso antecipadamente conseguirão planejar a transição com calma. Aquelas que deixarem para agir no momento da cobrança plena farão o redesenho sob pressão financeira e de operações.

 

Escala menor demanda mais produtividade

Paralelamente, a pauta de redução das jornadas de trabalho traz uma pressão imediata sobre a produtividade interna. O avanço da proposta que reduze a carga semanal e garante dias adicionais de descanso significa, na prática, menos horas disponíveis por colaborador para operar os mesmos armazéns e frotas. A resposta simplista de contratar mais pessoas para preencher turnos tende a inflacionar os custos operacionais. A única alternativa sustentável é aumentar a produtividade por hora trabalhada.

Isso exige abandonar escalas históricas e ultrapassadas em favor de um dimensionamento de equipes baseado no perfil real da demanda, além de automatizar seletivamente as tarefas intralogísticas de menor valor agregado. E, principalmente, dar visibilidade de desempenho em tempo real para a ponta operacional, permitindo que as decisões de ajuste ocorram no decorrer do próprio turno, e não na leitura atrasada de relatórios no dia seguinte.

 

IA não corrige processos

Nesse contexto de rápida evolução, a inteligência artificial surge como um catalisador de eficiência, desde que aplicada com critério. O maior erro na adoção de IA na logística tem sido tentar sobrepor tecnologia de ponta a processos operacionais falhos ou mal estruturados. A tecnologia aplicada sobre um processo ruim não o corrige; apenas acelera a execução do erro e amplia a complexidade da operação com uma falsa aparência de sofisticação.

A IA gera valor real onde já existe disciplina de gestão e processo bem desenhado: na otimização da previsão de demanda, na roteirização dinâmica que reage a eventos em tempo real, na visibilidade ponta a ponta da cadeia e na automação de rotinas burocráticas de back-office, como a conciliação fiscal e o processamento de documentos. A ordem dos fatores é inegociável: primeiro organiza-se o processo, depois aplica-se a tecnologia para escalar o resultado.

 

Mudança de visão

Para que essa transformação aconteça de fato, a alta gestão precisa mudar sua própria visão sobre o papel da logística. Uma gestão que se limita a discutir frete por quilo ou custo por quilômetro rodado está apenas administrando o extrato bancário diário, e não o patrimônio estratégico da empresa. A mentalidade de apagar incêndios resolve a entrega de hoje, mas deixa a empresa vulnerável às mudanças do mercado. A logística precisa deixar de ser encarada como um centro de custo a ser minimizado e passar a ser tratada como uma alavanca central de competitividade.

Nas grandes transformações corporativas, as falhas mais comuns de governança ocorrem quando os projetos não possuem donos claramente responsabilizados pelos resultados, ou quando a visão estratégica da diretoria não se traduz em mudanças nos indicadores da média gerência. Se o topo da empresa prega a inovação, mas a equipe da ponta continua sendo cobrada exatamente pelos mesmos critérios antigos, as decisões continuarão sendo as mesmas.

 

O roteiro para a mudança

A preparação para esse novo ciclo exige coragem para realizar um diagnóstico honesto sobre o negócio. Um roteiro pragmático para os primeiros noventa dias deve focar em três ações fundamentais: mapear a real exposição fiscal da malha atual para dimensionar a dependência dos incentivos em transição; medir com precisão a produtividade por turno e por atividade antes das mudanças de jornada; e rodar um projeto piloto de inteligência artificial em um processo previamente redesenhado, com metas claras e responsabilidade definida.

O grande desafio das empresas é realizar essa transição profunda sem interromper a execução do dia a dia. É o equivalente a reestruturar a engenharia de um veículo em plena velocidade.

É exatamente nessa interseção que uma consultoria estratégica de transformação empresarial traz sua maior contribuição. Mais do que apresentar conceitos teóricos ou relatórios formais, uma abordagem consultiva inovadora e provocativa ajuda as lideranças a confrontarem a distância entre a maturidade que imaginam ter e a eficiência real de suas operações.

Ao estruturar diagnósticos precisos, organizar processos e implantar uma disciplina rigorosa de gestão de mudanças, torna-se possível enxergar os pontos cego da operação e executar a transição de forma sustentável.

As organizações e os executivos que souberem utilizar esse momento de ruptura fiscal, trabalhista e tecnológica para reformular suas teses operacionais não apenas garantirão a eficiência do negócio, mas construirão uma vantagem competitiva sustentável e difícil de ser copiada na próxima década. 

 

* Boris Leite é sócio-fundador da Ekantika, ecossistema de consultorias de gestão empresarial voltadas à transformação de processos, estrutura organizacional e operações em grandes empresas.

 

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